O cadáver dos Sinos






Era uma quinta-feira de muito frio e chuva, mas nada que impedisse Ariovaldo de seguir mais uma vez pelas ruas da cidade a procura de ocorrências e chamadas. Aparentemente era apenas mais um dia comum na vida do policial da Brigada Militar de São Leopoldo. Enfrentando o mal tempo, colocou sua farda e saiu para o trabalho para cumprir suas obrigações com a comunidade.

Ariovaldo, ao chegar à delegacia do bairro onde trabalhava recebeu a informação de que deveria atender uma ocorrência do outro lado da cidade, mais um evento corriqueiro da profissão. O caminho para o chamado estava tranquilo, sirenes desligadas e o rádio mudo. Era apenas uma briga de bar para resolver. A calma de Ariovaldo durou pouco, pois quando parou em uma das sinaleiras, que ficava no caminho para o seu destino, viu uma movimentação suspeita e decidiu averiguar. A partir dali, a ocorrência mudou, a briga de bar havia sido trocada por um corpo, um homem aparentemente morto, boiando sob as águas do rio mais conhecido da cidade, algo de muito estranho havia ocorrido ali.

O policial chamou a perícia para analisar, mas não haviam evidências, apenas um papel molhado no bolso do cadáver. Era um bilhete. Ariovaldo muito curioso abriu o misterioso fragmento e ao ler teve mais uma surpresa. Se tratava de uma carta de confissão, o indivíduo que estava ali, molhado e gelado, era na verdade o assassino de sua própria família. O relato cheio de detalhes do crime mesclados a incessantes pedidos de desculpa mostrava o tamanho da loucura daquele homem. Com certeza Ariovaldo, em seus tantos anos de trabalho, nunca havia visto crime tão bárbaro.

O quase aposentado e pai de família, horrorizado, foi atrás dos depoimentos dos populares, mas ninguém sequer conhecia o sujeito, era desconhecido naquela parte da cidade. Junto com a carta escrita pelo homem estava uma linda foto da sua família. Tinha duas filhas e uma mulher, o sorriso estampado no rosto daquele indivíduo não cabia em tal cena, não podia-se acreditar que seria capaz de ter feito aquilo, não ele, aquele pai de família alegre do retrato.

O dia de Ariovaldo não tinha lhe dado as melhores experiências que poderia ter, ao contrário, mais uma vez se deparou com a insanidade do ser humano, a incapacidade de sentir e concluiu que existem duas coisas infinitas no mundo: o universo e a estupidez humana. Nada poderia justificar o ato daquele homem, tirar a sua vida e de seus familiares, ainda mais por um motivo que, até hoje, ninguém foi capaz de descobrir.


— Texto inspirado no caso do homem encontrado morto no Rio dos Sinos.

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