Eu estava sentado em um canto do quarto apenas observando-a enquanto o fluxo de ideias corria pela minha cabeça sem achar um motivo lógico para aquilo. Seus olhos estavam baixos como se ela também não tivesse certeza. Tentei me prender a essa ideia para acalmar meus nervos.
Levantei-me do sofá estampado e pousei uma de minhas mãos em sua cabeça acariciando seu cabelo tentando mostrar minha real condolência a ela, já que muitos apenas o faziam por interesse. Inspirei profunda e vagarosamente o cheiro forte de cigarro e álcool que seu corpo robusto exalava e, de uma forma inigualável, fazia com que os odores se misturassem ao seu doce perfume e personalidade. Fiava-me a ideia de que poderia sentir este cheiro mais uma vez.
Mas, no instante em que seu olhar cruzou com o meu, toda a rocha de esperança que ainda me restava derreteu-se em meio ao magma de confiança e determinação que transbordava de seus olhos. Ela estava decidida e ninguém poderia impedi-la. Eu sabia que somente alguns se lembrariam de Natália. Os outros se lembrariam apenas de sua personagem, Natasha, e suas roupas cheias de glamour somadas à personalidade fútil e esnobe, que por muito tempo ela sustentara diante da aristocracia da cidade. Eu sentiria falta daquele olhar cheio de sabedoria e que, por escolha sua, só era visto pelos seus verdadeiros amigos.
— Lembre-se: Não quero que ninguém fique sabendo a real causa de minha morte — disse ela em uma voz persuasiva, interrompendo meu conflito interno, enquanto entregava as chaves de seu carro a mim.
— Natália — chamei seu verdadeiro nome uma última vez quase como um sussurro.
— Agora é tarde — ela interrompeu meu protesto. — Deixe meu carro em qualquer lugar e, por favor, suma com o meu corpo durante uma semana, pelo menos.
Ela me abraçou por um momento afagando minha nuca na tentativa de avisar que estava tudo bem. Embebedou-se com a toxina letal e deitou-se na cama como se fosse dormir. Quem dera eu acreditar que ela acordaria amanhã.
As imagens de sua vida dobrada vieram a minha cabeça. E, finalmente, passei a entender seu motivo. Sua despedida precoce congelaria, para os mais próximos, a verdadeira imagem doce e juvenil dela. Ninguém a veria envelhecer, enrugar ou trocar os papéis de menina por mulher de negócios. Eu não a julgava pela sua duplicidade. Até apoiava aquela fuga da realidade fútil e de futuro planejado em que todos eram iguais, mas uns mais iguais que os outros.
Mais tarde, no mesmo dia, observei de longe o desespero e a inútil procura de seus amigos para achá-la. Naquele momento, lembrei-me dela dormindo ao meu lado, enquanto sua respiração diminuía de frequência até cessar. Assim ela me disse adeus. Feliz e triste, medrosa e segura, amada e renegada, pacífica e arredia, completa e vazia, inteligente e estúpida, Natália e Natasha.
— Texto narrativo fictício inspirado em um caso que ocorreu há mais de 20 anos atrás. Uma jovem desapareceu enquanto voltava da aula e apenas seu carro foi encontrado no dia do desaparecimento. Seu corpo foi encontrado apenas uma semana depois em um rio e ainda não se sabe o que realmente aconteceu. Os nomes foram modificados para preservar a identidade da jovem.
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